sexta-feira, 11 de junho de 2010

A ABI e os Militares




Reproduzo, parcialmente, meu depoimento ao curso de jornalismo sobre “o comportamento da Associação Bahiana de Imprensa durante a ditadura militar”, a pedido do estudante de jornalismo / FIB, Victor Bugalho.
Resposta à pergunta “É verdade que os militares invadiram o Diário de Notícias. E houve uma tentativa de assassinato contra o jornalista Odorico Tavares”?
- Não. O jornalista Odorico Tavares foi vítima de perseguições conduzidas pelo coronel Luis Artur e de um atentado espalhafatoso do coronel da PM Nei Ferreira, político, dirigente esportivo e genro de Antonio Balbino, ex-governador. Ele entrou armado na redação do DN, em companhia de um pistoleiro, quando estava quase deserta, porque no intervalo de funcionamento dos dois jornais associados, o vespertino Estado da Bahia e o matutino Diário de Notícias.
Brandindo um chicote e desaforos. Publiquei na edição DN do dia seguinte, sem combinar com Odorico, na primeira página, nota de meia dúzia de linhas assinada por mim, com protesto e solidariedade, além do retrato moral do agressor.
ABI e A Tarde
Resposta à pergunta “Qual a avaliação sobre a postura da ABI durante a ditadura”:
- A ABI sempre se confundiu com A Tarde. Hoje, reflete, embora com escassa visibilidade, as influências positivas do jornal fundado por Simões Filho, agora com pluralidade quase exemplar. Bem diferente de outras fases, como a que corresponde ao quatriênio (metade no período João Goulart; metade no regime militar) do governo Lomanto Júnior.
1968
Victor, não esqueça, no seu trabalho, de destacar que 1968 foi um ano emblemático para aferição das posições dos jornais de Salvador. Foi quando, de certa forma, começou a reação possível contra os militares, via manifestações estudantis. É só comparar as coberturas feitas pelo Diário de Notícias e pelos outros jornais. Inclusive no episódio da morte de uma estudante do ICEIA. Foi proibido qualquer tipo de divulgação a respeito, através de instruções transmitidas pelo coronel Luis Artur, da Polícia Federal, desobedecidas pelo DN, o que gerou feroz perseguição ao jornalista Odorico Tavares, comprometendo até sua saúde, pois veio a sofrer uma trombose, passando dez anos na cadeira de rodas.
Ele comandava então o condomínio associado na Bahia (jornais Diário de Notícias e Estado da Bahia e a Rádio Sociedade e a TV Itapoan).
Esclarecimentos
Dois esclarecimentos sobre isso: como redator chefe, eu tinha plena autonomia e, com base nela, deixei falar mais alto minha condição de ex-dirigente da União Nacional dos Estudantes (gestão do presidente Marcos Heusi Neto). Antes mesmo de ler o DN, que mostrava a dimensão dos protestos estudantis, Odorico Tavares foi informado do seu conteúdo , ainda em sua casa no Morro do Ipiranga, pelo governador Luiz Viana Filho. Leitor e articulista do jornal, ele confessou-se surpreso, na conversa telefônica, até pelo confronto do noticiário DN com o que saiu (ou melhor não saiu) no JBa e em A Tarde. Odorico, com toda a tranqüilidade, e tom um tanto paternal, me fez esse relato e confidenciou que tinham pedido a minha cabeça (Excluiu Luiz Viana - seria incapaz de um gesto deste – mas não revelou quem).
Acordo Time-Life
Victor, para compreender este episódio, vale esclarecer que Odorico jamais me perguntou qual seria a manchete da edição DN do dia seguinte. Sua confiança no meu trabalho era total e a consideração que me dispensava cresceu mais ainda. E vice-versa.
As relações das Emissoras e Diários Associados, na gestão João Calmon (elegeu-se senador) com o regime militar foram marcadas pelo conflito decorrente do apoio do governo Castelo Branco ao Acordo Time-Life, que ergueu o império da Rede Globo e desmoronou os Associados de Assis Chateaubriand.
Campanha Nacional
Sob o comando de João Calmon foi então movida a campanha nacional contra o Acordo Time-Life. Nessa fase, recebi convite do consulado dos EUA em Salvador para visitar o pais, tendo sido marcada prévia conversa com o representante diplomático norte-americano. Ele me fez uma pergunta curta e grossa: Por que só o Diário de Notícias faz na Bahia campanha contra o Acordo Time-Life?
Estive para me levantar da cadeira, dar-lhe as costas e ir-me embora sem responder. Mas aí não falou o “cangaceiro de Serra Negra” (nome do então povoado do município de Jeremoabo hoje município de Pedro Alexandre) como brincava Odorico comigo e sim o meu lado civilizado:
- Não sei por que o jornal Estado da Bahia e a Rádio Sociedade e a TV Itapoan não fazem a campanha. Só sei que o Diário de Notícias faz porque esta é a posição do Condomínio Associado.
Aí morreram a conversa e o convite.
Muitas outras estórias poderia contar. Mas vou deixá-las para o meu livro, com o titulo provisório de “A Crônica de Minha Aldeia”, um projeto que precisa de apoios como o do professor Luis Guilherme e do seu e de outros jornalistas, leitores e críticos.

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